terça-feira, 5 de dezembro de 2017

«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo»

SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO DA VIRGEM SANTA MARIA
ANO B



Tema da Solenidade da Imaculada Conceição

Na Solenidade da Imaculada Conceição somos convidados a equacionar o tipo de resposta que damos aos desafios de Deus. Ao propor-nos o exemplo de Maria de Nazaré, a liturgia convida-nos a acolher, com um coração aberto e disponível, os planos de Deus para nós e para o mundo.

O Evangelho apresenta a resposta de Maria ao plano de Deus. Ao contrário de Adão e Eva, Maria rejeitou o orgulho, o egoísmo e a auto-suficiência e preferiu conformar a sua vida, de forma total e radical, com os planos de Deus. Do seu “sim” total, resultou salvação e vida plena para ela e para o mundo.


EVANGELHO – Lc 1,26-38

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
o Anjo Gabriel foi enviado por Deus
a uma cidade da Galileia chamada Nazaré,
a uma Virgem desposada com um homem chamado José.
O nome da Virgem era Maria.
Tendo entrado onde ela estava, disse o anjo:
«Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo».
Ela ficou perturbada com estas palavras
e pensava que saudação seria aquela.
Disse-lhe o Anjo:
«Não temas, Maria,
porque encontraste graça diante de Deus.
Conceberás e darás à luz um Filho,
a quem porás o nome de Jesus.
Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo.
O Senhor Deus Lhe dará o trono de seu pai David;
reinará eternamente sobre a casa de Jacob
e o seu reinado não terá fim».
Maria disse ao Anjo:
«Como será isto, se eu não conheço homem?»
O Anjo respondeu-lhe:
«O Espírito Santo virá sobre ti
e a força do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra.
Por isso, o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus.
E a tua parenta Isabel concebeu também um filho na sua velhice
e este é o sexto mês daquela a quem chamavam estéril;
porque a Deus nada é impossível».
Maria disse então:
«Eis a escrava do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra».

AMBIENTE
O texto que nos é hoje proposto pertence ao “Evangelho da Infância” na versão de Lucas. De acordo com os biblistas actuais, os textos do “Evangelho da Infância” pertencem a um género literário especial, chamado homologese. Este género não pretende ser um relato jornalístico e histórico de acontecimentos; mas é, sobretudo, uma catequese destinada a proclamar certas realidades salvíficas (que Jesus é o Messias, que Ele vem de Deus, que Ele é o “Deus connosco”). Desenvolve-se em forma de narração e recorre às técnicas do midrash haggádico (uma técnica de leitura e de interpretação do texto sagrado usada pelos rabbis judeus da época de Jesus). A homologese utiliza e mistura tipologias (factos e pessoas do Antigo Testamento, encontram a sua correspondência em factos e pessoas do Novo Testamento) e aparições apocalípticas (anjos, aparições, sonhos) para fazer avançar a narração e para explicitar determinada catequese sobre Jesus.

O Evangelho que nos é hoje proposto deve ser entendido a esta luz: não interessa, pois, estar aqui à procura de factos históricos; interessa, sobretudo, perceber o que é que a catequese cristã primitiva nos ensina, através destas narrações, sobre Jesus.

A cena situa-nos numa aldeia da Galileia, chamada Nazaré. A Galileia, região a norte da Palestina, à volta do Lago de Tiberíades, era considerada pelos judeus uma terra longínqua e estranha, em permanente contacto com as populações pagãs e onde se praticava uma religião heterodoxa, influenciada pelos costumes e pelas tradições pagãs. Daí a convicção dos mestres judeus de Jerusalém de que “da Galileia não pode vir nada de bom”. Quanto a Nazaré, era uma aldeia pobre e ignorada, nunca nomeada na história religiosa judaica e, portanto (de acordo com a mentalidade judaica), completamente à margem dos caminhos de Deus e da salvação.

Maria, a jovem de Nazaré que está no centro deste episódio, era “uma virgem desposada com um homem chamado José”. O casamento hebraico considerava o compromisso matrimonial em duas etapas: havia uma primeira fase, na qual os noivos se prometiam um ao outro (os “esponsais”); só numa segunda fase surgia o compromisso definitivo (as cerimónias do matrimónio propriamente dito)… Entre os “esponsais” e o rito do matrimónio, passava um tempo mais ou menos longo, durante o qual qualquer uma das partes podia voltar atrás, ainda que sofrendo uma penalidade. Durante os “esponsais”, os noivos não viviam em comum; mas o compromisso que os dois assumiam tinha já um carácter estável, de tal forma que, se surgia um filho, este era considerado filho legítimo de ambos. A Lei de Moisés considerava a infidelidade da “prometida” como uma ofensa semelhante à infidelidade da esposa (cf. Dt 22,23-27)… E a união entre os dois “prometidos” só podia dissolver-se com a fórmula jurídica do divórcio. José e Maria estavam, portanto, na situação de “prometidos”: ainda não tinham celebrado o matrimónio, mas já tinham celebrado os “esponsais”.

MENSAGEM
Depois da apresentação do “ambiente” do quadro, Lucas apresenta o diálogo entre Maria e o anjo.

A conversa começa com a saudação do anjo. Na boca deste, são colocados termos e expressões com ressonância vétero-testamentária, ligados a contextos de eleição, de vocação e de missão. Assim, o termo “ave” (em grego, “kaire”) com que o anjo se dirige a Maria é mais do que uma saudação: é o eco dos anúncios de salvação à “filha de Sião” – uma figura fraca e delicada que personifica o Povo de Israel, em cuja fraqueza se apresenta e representa essa salvação oferecida por Deus e que Israel deve testemunhar diante dos outros povos (cf. 2 Re 19,21-28; Is 1,8;12,6; Jer 4,31; Sof 3,14-17). A expressão “cheia de graça” significa que Maria é objecto da predilecção e do amor de Deus. A outra expressão “o Senhor está contigo” é uma expressão que aparece com frequência ligada aos relatos de vocação no Antigo Testamento (cf. Ex 3,12 – vocação de Moisés; Jz 6,12 – vocação de Gedeão; Jer 1,8.19 – vocação de Jeremias) e que serve para assegurar ao “chamado” a assistência de Deus na missão que lhe é pedida. Estamos, portanto, diante do “relato de vocação” de Maria: a visita do anjo destina-se a apresentar à jovem de Nazaré uma proposta de Deus. Essa proposta vai exigir uma resposta clara de Maria.

Qual é, então, o papel proposto a Maria no projecto de Deus?
A Maria, Deus propõe que aceite ser a mãe de um “filho” especial… Desse “filho” diz-se, em primeiro lugar, que Ele se chamará “Jesus”. O nome significa “Deus salva”. Além disso, esse “filho” é apresentado pelo anjo como o “Filho do Altíssimo”, que herdará “o trono de seu pai David” e cujo reinado “não terá fim”. As palavras do anjo levam-nos a 2 Sm 7 e à promessa feita por Deus ao rei David através das palavras do profeta Nathan. Esse “filho” é descrito nos mesmos termos em que a teologia de Israel descrevia o “messias” libertador. O que é proposto a Maria é, pois, que ela aceite ser a mãe desse “messias” que Israel esperava, o libertador enviado por Deus ao seu Povo para lhe oferecer a vida e a salvação definitivas.

Como é que Maria responde ao projecto de Deus?
A resposta de Maria começa com uma objecção… A objecção faz sempre parte dos relatos de vocação do Antigo Testamento (cf. Ex 3,11; 6,30; Is 6,5; Jer 1,6). É uma reacção natural de um “chamado”, assustado com a perspectiva do compromisso com algo que o ultrapassa; mas é, sobretudo, uma forma de mostrar a grandeza e o poder de Deus que, apesar da fragilidade e das limitações dos “chamados”, faz deles instrumentos da sua salvação no meio dos homens e do mundo.

Diante da “objecção”, o anjo garante a Maria que o Espírito Santo virá sobre ela e a cobrirá com a sua sombra. Este Espírito é o mesmo que foi derramado sobre os juízes (Oteniel – cf. Jz 3,10; Gedeão – cf. Jz 6,34; Jefté – cf. Jz 11,29; Sansão – cf. Jz 14,6), sobre os reis (Saul – cf. 1 Sm 11,6; David – cf. 1 Sm 16,13), sobre os profetas (cf. Maria, a profetisa irmã de Aarão – cf. Ex 15,20; os anciãos de Israel – cf. Nm 11,25-26; Ezequiel – cf. Ez 2,1; 3,12; o Trito-Isaías – cf. Is 61,1), a fim de que eles pudessem ser uma presença eficaz da salvação de Deus no meio do mundo. A “sombra” ou “nuvem” leva-nos também à “coluna de nuvem” (cf. Ex 13,21) que acompanhava a caminhada do Povo de Deus em marcha pelo deserto, indicando o caminho para a Terra Prometida da liberdade e da vida nova. A questão é a seguinte: apesar da fragilidade de Maria, Deus vai, através dela, fazer-Se presente no mundo para oferecer a salvação a todos os homens.

O relato termina com a resposta final de Maria: “eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”. Afirmar-se como “serva” significa, mais do que humildade, reconhecer que se é um eleito de Deus e aceitar essa eleição, com tudo o que ela implica – pois, no Antigo Testamento, ser “servo do Senhor” é um título de glória, reservado àqueles que Deus escolheu, que Ele reservou para o seu serviço e que Ele enviou ao mundo com uma missão (essa designação aparece, por exemplo, no Deutero-Isaías – cf. Is 42,1; 49,3; 50,10; 52,13; 53,2.11 – em referência à figura enigmática do “servo de Jahwéh”).

Desta forma, Maria reconhece que Deus a escolheu, aceita com disponibilidade essa escolha e manifesta a sua disposição de cumprir, com fidelidade, o projecto de Deus.


A Custódia da Terra Santa - 3


Período ‘‘Moderno’’




Em 1847 o Papa Pio IX, com a breve carta apostólica “Nulla Celebrior”, restabeleceu a sede Patriarcal Latina em Jerusalém. Nesta carta foram recordados os obstáculos que haviam impedido até então, ao patriarca latino, de residir à Jerusalém. Por isso, dada a mudança geral da situação, o Papa dava a jurisdição necessária obrigando o patriarca latino de ter a sua sede fixa em Jerusalém. A Custódia da Terra Santa continua a desenvolver a sua missão providencial em favor dos Lugares Santos e a multiplicar a sua atividade em benefício da população presente na área em que atua.

Naquilo que diz respeito aos Santuários, encontramos os seguintes aspectos: em 1867 a Serva de Deus Paulina Nicolay doou à Custódia o Santuário de Emaús; em 1875 foi feito a aquisição da VII Estação da Via Sacra; em 1878 o Santuário de Naim; em 1879 concluíram-se as tratativas referentes ao Santuário de Caná da Galiléia; em 1880 foi o ano da conquista do Santuário de Betfagé; entre 1889 e 1950 a Custódia garantiu a posse da V Estação, do “Dominus Flevit”, de Tabga, de Cafarnaum, do Campo dos Pastores junto de Belém, do Deserto de São João Batista, do Monte Nebo, do local onde aconteceu o Batismo de Jesus às margens do Rio Jordão e de uma pequena área nas imediações do Santo Cenáculo e de Betânia.

É principalmente durante este período em que a Custódia da Terra Santa expandiu e desenvolveu a sua obra de reconstrução parcial ou total dos Santuários. No início eram pequenas capelas sem intenção alguma. Os meios econômicos e as resistências sociais não permitiam fazer grandes edifícios. Sobretudo no século XX, os franciscanos tentavam entender melhor os sentimentos comuns dos seus fiéis que com toda razão exigiam que os Santuários fossem incrementados para a dignidade e favorecimento das devoções. Recordemos agora a multiforme atividade de construção dos seguintes templos religiosos: em 1901 a construção da Basílica de Emaús; de 1919-1924 a Basílica da Agonia no Getsêmani; de 1921-1924 a Basílica da Transfiguração no Monte Tabor; de 1952-1953 a construção do novo Santuário de Betânia; de 1953-1954 aquele do Campo dos Pastores nas proximidades de Belém; em 1955 o Santuário de “Dominus Flevit” na descida do Monte das Oliveiras; de 1955-1969 a Basílica da Anunciação em Nazaré.

Não obstante a tanto trabalho ainda é possível assistir a episódios de sangue derramado pelos frades, a exemplo do ano de 1860 na cidade de Damasco. Ouve aí o desencadear-se de uma perseguição dos Drusos contra os cristãos do Líbano e acabou alargando-se mais tarde em direção da Síria e Damasco. A perseguição se formou por causa do decreto assinado em Paris em 1856 por parte do Sultão Abdul-Megil, no qual o mesmo Sultão reconhecia igualmente a todos os seus súditos, sem distinção de raça ou religião. A perseguição resultou em cerca de sete mil mortos entre os quais o Beato frei Emanuel Ruiz e seus companheiros mártires. Outro caso de martírio ocorreu na Turquia em 1895 quando foi assassinado o frei Salvador Lilli, mártir que mais tarde veio canonizado.

O clima histórico daquele período pode até ser bem compreendido se fizermos uma leitura da crônica de um ato sanguinário ocorrido em Jerusalém em 1901, quando, também em conseqüência da imposição do Status Quo, criavam-se situações de grande tensão. Nesta ocasião os fatos da discussão eram relacionados aos direitos de varrer o pátio ao lado das escadas que dão acesso à capela, conhecida como Capela dos Francos. Os monges gregos agrediram os frades, deixando alguns deles com ferimentos graves por causa das pedradas que estavam depositadas nos terraços próximos ao pátio.

Por fim, em 1920, por causa da perseguição contra os armênios, três sacerdotes e dois frades foram mortos pelos turcos.

Para concluir esta síntese histórica da Custódia da Terra Santa citaremos as palavras da Exortação Apostólica Nobis in Animo, que o Papa Paulo VI emanou em 1974: “Não sem um designo providencial, as façanhas históricas do século XIII trouxeram à Terra Santa a Ordem dos Frades Menores. Os filhos de São Francisco, daquele momento em diante, permaneceram na Terra de Jesus para servir a Igreja Local e para custodiar, restaurar e proteger os Lugares Santos. A fidelidade destes frades, ao desejo de seu fundador e a incumbência dada pela Santa Sé, foi muitas vezes marcada por atos de extraordinária virtude e generosidade”.


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Custódia da Terra Santa - 2

Período de organização



Destinada a recolher o comando e a herança dos Cruzados, a Província da Terra Santa é agora lançada à conquista específica dos Lugares Santos e destinada a representar os interesses da Igreja Católica no Oriente. A sua existência jurídica é reconhecida tanto pelas autoridades eclesiásticas quanto pelas civis muçulmanas.
Em 1347 os franciscanos tomaram posse em Belém como habitantes oficiais da Basílica e da Gruta da Natividade. Em 1363, Joana, rainha de Nápoles e da Sicília obteve uma assinatura do Sultão do Egipto. Por força desta assinatura, os franciscanos alcançaram o direito de posse da Edícula e do Túmulo de Maria, no vale de Josafat. Em 1375, do convento de Belém, os franciscanos receberam também a posse da chamada Gruta do Leite, situada nas proximidades daquela da Natividade de Nosso Senhor. Em 1392, obtiveram o direito oficial da Gruta do Getsémani situada no vale de Josafat, a poucos metros do Túmulo de Maria. Em 1485, readaptaram o culto à Gruta da Natividade de São João Batista em Ain Karem.

Com o aumento dos compromissos, sentiu-se a necessidade de uma legislação adequada.
Em 1377, foram constituídos os primeiros Estatutos da Terra Santa. Esses deram um grande incremento às prescrições enunciadas na Bula Gratias Agimus, prescrevendo que o número de religiosos que prestavam serviço na Terra Santa não superasse os vinte. Naquilo que diz respeito à actividade, os frades deveriam ocupar-se, além do culto religioso nos santuários, deveriam atender também os peregrinos europeus que vinham visitar os Lugares Santos.
Em 1444, Lausana sediou o Capítulo Geral dos Frades Menores. Os capitulares, assim como nas assembleias gerais precedentes, trataram dos problemas da Terra Santa e deram-se conta que seria necessário transformar a Custódia num órgão mais autónomo do que uma simples Província. Além de ter que incrementar o numero de religiosos a seu serviço. Dezasseis anos mais tarde, exatamente em 1430, foi estabelecido que o Custódio da Terra Santa fosse eleito pelo Capítulo Geral, prática que foi mantida por três anos. Em seguida a eleição do Custódio da Terra Santa foi feita pelo Ministro Geral juntamente com seu Conselho, e esta norma respeita-se até os dias de hoje.

Em 1517 a Custódia da Terra Santa, por manter sua denominação, conquistou plena autonomia através da configuração à Província. Simultaneamente ao progressivo definir-se da figura jurídica, a Custódia obteve da Santa Sé particulares poderes e autorizações em diversos sectores, mas sempre em vista de uma presença mais dinâmica dos frades na Terra Santa. Os frades puderam assim empenhar-se mais, especialmente na assistência espiritual aos peregrinos, porém mais ainda na actividade ecuménica, que teve o seu primeiro grande momemto durante o Concílio de Florença (1431-1443). Nesta ocasião conseguiu-se a reconciliação entre os cristãos separados do Oriente e a Igreja Católica. Esta reconciliação logo se revelou transitória, e durante aproximadamente dois séculos, os franciscanos de Terra Santa, representaram quase que a única possibilidade “in loco” de relações directas e autorizadas do mundo católico com as Igrejas separadas do Oriente Médio. As relações com as Igrejas orientais continuaram mantendo-se vivas, até os dias de hoje, adequando-se às diversidades dos tempos e das situações juntamente com as inúmeras iniciativas da Santa Sé no intuito de reavivar os contatos e o espírito ecuménicos. Este apostolado especial, apesar das interrogações, não é reconhecido como realmente mereceria.

Outra atividade que lamentavelmente ficou na sombra da história dos franciscanos na Terra Santa é aquela da
assistência espiritual aos comerciantes europeus que residiam ou estavam de passagem nas cidades do Egipto, da Síria e do Líbano. Esta atividade que no início não era organizada e se dava conforme as oportunidades favoráveis foi melhor constituída. Na segunda metade do século XVI a assistência espiritual tornou-se mais ou menos contínua, até a assumir no século XVII um caracter estável, com a criação de residências para melhor atender as necessidades presentes. Os franciscanos que desde o início se haviam tornado capelães de Cônsules e de colónias comerciais europeias. Consolidando-se assim, como apóstolos a serviço de todos, “irradiando a luz do Evangelho” em torno de suas residências, que pouco a pouco, se configuravam em verdadeiras paróquias com inúmeras obras e actividades de todos os géneros.

A evangelização na Terra Santa, em alguns momentos da história, foi promovida até em favor dos fiéis da religião muçulmana, tanto em forma de evangelização pessoal como colectiva. Empenho este que sempre trouxe resultados diferentes, algumas vezes tendo como consequência a morte de alguns frades. Foram mortos, em 1391, os quatro mártires canonizados pelo Papa Paulo VI no dia 21 de julho de 1970: Nicolò Tavelich (croata), Stefano da Cuneo (italiano) e Deodato da Rodez e Pietro da Narbona (franceses). A respeito destes mártires, no discurso pronunciado pelo Papa durante a cerimónia de canonização, dentre outras coisas foi afirmado: “estamos diante de um testemunho paradoxal, contrastante e vão, porque foi logo acolhido, mas de grande preciosidade, porque foi autenticado com o dom da própria vida”.

Seja como for,
a presença dos franciscanos na Terra Santa está, sobretudo ligada aos santuários e à manutenção dos Lugares Santos, mesmo porque, analisando mais profundamente, todas as outras actividades se criaram partindo da ligação com os santuários e se fortificaram por causa da grande importância que tinham perante toda a Igreja. Desde o início deste período, que nomeamos como período de organização, os franciscanos empenharam-se em reconstruir os santuários da Terra Santa que com o tempo se encontravam em ruínas.

Em 1343 foi reformada a construção cruzada do Cenáculo. Em 1479, sob a vigilância do frei João Tomacelli de Nápoles, foi refeito toda a estrutura do telhado da Basílica da Natividade em Belém. Para concluir tamanha obra, frei João contou com a ajuda: da República de Veneza que doou a madeira necessária, Felipe o Bom que era Duque de Borgonha suportou as despesas dos trabalhos e Eduardo IV, rei da Inglaterra, doou o chumbo usado para a cobertura.
 
Os acontecimentos recordados neste período são muitos. É necessário recordar que os resultados positivos são todos fruto de negociações complexas e quase que intermináveis, na maior parte das vezes economicamente onerosas, mas enfrentadas sempre com imbatível tenacidade.

(in www.custodia.org)


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A Custódia da Terra Santa - 1

A Custódia da Terra Santa



Quem peregrina à Terra Santa embate com uma realidade surpreendente de presença cristã: os Franciscanos da Ordem do Frades Menores, fundada por S. Francisco de Assis.

Os principais protagonistas dos Lugares Santos são os frades menores. Eles cumprem a sua missão nesta terra, impulsionados por seu fundador, São Francisco de Assis, que aqui os veio visitar em 1217.

“Custodiar significa antes de tudo amar, cuidar, estar ao alcance do coração, estar próximo. Custodiar, para nós hoje, significa estar sobre estes lugares, dar-lhes vida com a liturgia, pregando e animando-os”
Frei Pierbattista Pizzaballa, Custódio da Terra Santa

Importa pois conhecer a história desta presença contínua ao longo de 8 séculos.

1 - O período da fundação da Custódia da Terra Santa
Na prática a origem da Custódia da Terra Santa si dá em 1217, ano no qual, em Santa Maria dos Anjos, próximo de Assis, se celebra o primeiro Capítulo Geral dos Frades Menores. São Francisco, em um gesto inspirativo, decide mandar os seus frades a todas as nações. 


O mundo foi, por assim dizer, dividido em “Províncias” franciscanas e os frades, partindo de Assis, dividiram-se aos quatro pontos cardiais. Naquela solene ocasião, não foi esquecida a Terra Santa. Entre as onze Províncias-Mães da Ordem, apareceu também a Província da Terra Santa. Nos documentos foi apresentada com nomes diferentes: Província da Síria, da România ou Ultramarino. 

Esta Província era composta por Constantinopla e o seu império, pela Grécia e suas ilhas, pela Ásia Menor, Antioquia, Síria, Palestina, a ilha de Chipre, Egito e todo o resto do Oriente.

A Província da Terra Santa, seja pela vastidão do seu território, seja pela presença dos Lugares Santos, sempre foi vista com especial consideração. Era apresentada, desde o início, como sendo a “Província” mais importante da Ordem. Por isso, talvez, tenha sido confiada aos cuidados de frei Elias, um expoente na fraternidade que surgia, seja por seu talento organizativo, seja por sua vasta cultura. Seria interessante conhecer as iniciativas de frei Elias para organizar e consolidar esta Província da Ordem, levando em conta os problemas existentes naquele ambiente e por sua grande extensão geográfica.
O zelo e a qualidade de um bom governo que distinguiam frei Elias, devem ter-lo impulsionado, durante os anos de seu mandato, a lançar as bases do apostolado franciscano em todas as regiões situadas na Bacia Sul – Oriental do Mediterrâneo. 



Em 1219, o próprio São Francisco quis visitar pelo menos uma parte da Província da Terra Santa. Os documentos que relatam a presença do “Pobrezinho de Assis” entre os Cruzados, sobre os muros de Damieta, são do conhecimento de todos. Como também é conhecido o encontro de São Francisco com o Sultão Egípcio, Melek-el-Kamel, neto de Saladim o Grande. Os mesmos documentos relatam que Francisco, depois de ter deixado Damieta, dirigiu-se à Síria. 



De qualquer modo, a visita de São Francisco aos Lugares Santos se deu entre 1219 e 1220. Referente a isto Jacques de Vitry, bispo de São João de Acre (cidade conhecida como Tolemaida), escreveu: “O mestre desses frades, que é também o fundador da Ordem, chama-se Francisco. É amado de Deus e venerado por todos os homens. Veio ao nosso exército cheio de zelo pela fé. Não teve medo de passar até o campo dos inimigos”.

Durante sua breve viagem, São Francisco indicou aos futuros missionários franciscanos de que modo eles deveriam habitar naquelas regiões e qual seria o seu campo específico de atividades. No entender do “Pobrezinho”, a Evangelização deve ser feita amigavelmente e com extrema humildade, exatamente como ele fizera com o Sultão. Os Lugares Santos devem ser amados e venerados por sua estreita relação com os momentos mais significativos da vida de Cristo.



In, www.custodia.org